De onde vem nossa água? Em tempos de cheia no Norte do Brasil e seca no Sudeste, fica quase inevitável não perceber essa pergunta pairando no ar. O que quase ninguém percebe, no entanto, é que a resposta é justamente essa: do ar. Para ser mais exato, dos rios voadores (ou aéreos), um fenômeno natural impressionante que, apesar de estar em discussão no meio científico há quase três décadas, só recentemente ganhou força, principalmente com as publicações do engenheiro agrônomo e biogeoquímico Antonio Donato Nobre, do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Uma de suas mais recentes descobertas é igualmente impressionante: sem a Amazônia, coração desses rios invisíveis, boa parte do Brasil e da bacia do Prata (parte da Argentina e Uruguai) seria um deserto, seguindo a porção meridional na qual se encontra. Isso implica na região responsável por 70% do PIB do continente. Mas ele alerta: o desmatamento da maior floresta tropical do mundo ameaça esse equilíbrio natural - e já começa a deixar suas marcas físicas em boa parte do continente.
“Um mapa-múndi revela interessantes arranjos e simetrias na distribuição de florestas e desertos ao redor do globo, com três cinturões chamando a atenção: um de florestas ao redor da linha do Equador e outros dois de desertos, ao redor dos trópicos de Câncer e Capricórnio. Mas existem exceções, e a parte centro-meridional da América do Sul é uma delas, já que essa região tenderia à aridez. Basta ver o deserto de Atacama, no outro lado dos Andes, ou os desertos de Namíbia e Kalahari, na África, e o deserto da Austrália”, explica Nobre no relatório de avaliação científica “O futuro climático da Amazônia”, desenvolvido em parceria com a Articulación Regional Amazônica (ARA) e publicado no fim de 2014.
O que impede isso de acontecer é, na verdade, um “acidente geográfico” do nosso continente, com as Cordilheiras dos Andes “bloqueando” os rios aéreos e “redirecionando-os” para o Centro-Sul, Sudeste e Sul brasileiro, além de contribuir com os vizinhos uruguaios e argentinos.
Rios voadores
Diferente da explicação simplória dada nos tempos escolares - onde aprende-se que a água evapora do mar, vai para os continentes, cai como chuva, é coletada nos rios de superfície e retorna ao mar -, o fluxo dos rios voadores é um pouco mais complexo. No Oceano Atlântico, a água do mar evapora e é "bombeada" continente adentro, provocado pela pressão da umidade amazônica e também empurrada pelos ventos elísios. Já em cima da floresta, o rio voador dobra de volume, efeito da transpiração das árvores e a evaporação dos afluentes que correm no solo.
Esse bloco suspenso de vapor é do volume da vazão do próprio rio Amazonas (em torno de 200 milhões de litros por segundo, ou 17 bilhões de toneladas ao dia) e 80% dele passa a três quilômetros de altura. Seguindo esse movimento, essa umidade chega até o paredão de 6 mil metros conhecido como Andes e se divide, com metade se concentrando na Cordilheira em forma de neve e descendo montanha abaixo até atingir córregos que formam as bacias da Amazônia e a outra parcela, cerca de 40% do total, segue rumo ao Sul: mais da metade da precipitação do Centro-Oeste e Sudeste vem dessa veia aérea principal, mas outras 20 correntezas cruzam o céu do País, carregando um volume de água equivalente a 4 trilhões de caixas-d’água de mil litros cada.
Do total de chuvas na região amazônica, 25% alimentam os igarapés, 25% são retidos pelas folhas e 50% são absorvidos pelas árvores - esses últimos 75% voltam para a atmosfera em forma de vapor d’água. A existência da floresta ainda é o que proporciona a melhor distribuição da umidade do ar ao longo do ano, porque em dias em que pouca quantidade de vapor d’água entra no continente, as raízes das árvores amazônicas buscam água subterrânea e mantêm seu nível de transpiração, garantindo que os rios voadores continuem a cumprir sua trajetória.
Do pó viemos...
Para Nobre, a floresta amazônica, que conta atualmente com quase 20% de sua área desmatada e outras 20% degradadas, já começa a falhar em seu papel de regulação do clima na América do Sul. No relatório, que revisou 200 estudos sobre o cenário de pesquisa na área, ele conclui que a floresta já dá sinais de desgaste em seu papel de bombear umidade do oceano para o interior do continente, entre outros problemas.
A teoria da bomba biótica - que explica como os rios voadores geram importantes correntes de vento e a relação dessa potência com a condensação -, prevê que a redução significativa da evaporação em terra deve levar à redução da convergência do ar sobre o continente, causando a redução radical no transporte de umidade ou mesmo a sua reversão.
“Com a floresta, os ventos trazem umidade do mar para a terra. Sem floresta, o ar atmosférico poderia cessar de convergir sobre o continente, o que significaria eliminar até 100% das chuvas. Zero de chuvas levaria a um deserto”, afirma o biogeoquímico, que acrescenta: “Já a desertificação decorrente do desmatamento progressivo aniquilaria tudo, inclusive a maioria das atividades humanas na Amazônia”, alerta, prevendo um futuro apocalíptico se as coisas não mudarem.
Para reverter a situação, Nobre diz que a solução é não apenas parar o desmatamento, mas também iniciar um processo de reflorestamento, pois a seca que a região Sudeste ainda vive já pode ser resultado da destruição da Amazônia. “A Amazônia é um coração que faz circular ares e umidade e é responsável por muito do equilíbrio climático do planeta. Em seus 5,5 milhões de quilômetros quadrados, a floresta amazônica bombeia todos os dias 20 trilhões de litros de água do solo para a atmosfera”, disse.
De acordo com ele, as imagens de satélite mostram esse vapor sobre a floresta como fluxos nas artérias do ciclo da água, em contínua pulsação. “É preciso saber a importância dos rios voadores agora porque, quando eles pararem de funcionar, não poderemos consertá-los. Não é porque não os enxergamos que eles não existem. É por causa deles que o Centro-oeste, Sul e Sudeste do Brasil não são deserto”, comentou.
O fim?
A conclusão do relatório não é nem um pouco esperançosa: “Pelas evidências de alterações, o futuro climático da Amazônia já chegou”, escreve o cientista, temendo pelo desaparecimento da maior floresta tropical do planeta.
“Acabou o tempo, mas não posso afirmar que já ultrapassamos o ponto de não retorno. O que dá para falar é que a situação é terminal, não dá para cortar mais nenhuma árvore. Eu mesmo já tinha dito que a situação era gravíssima, mas as pessoas não conseguem modificar seus comportamentos pela falta de identificar o fator de risco. O conforto ambiental treinou o cérebro para acreditar de que não se precisa fazer nada, que a natureza controla tudo e São Pedro está aí para enviar a chuva”, desabafa.
Para ele, se a devastação da floresta continuar no ritmo atual, é apenas questão de tempo para a Amazônia se transformar em uma savana. “A savanização da Amazônia parece ser uma realidade, especialmente nas áreas mais desmatadas. Vivemos em um planeta que não compreendemos, mas que é construído e operado por meio de sistemas sofisticadíssimos. Precisamos prestar atenção nessa tecnologia natural e conservá-la. Para o nosso próprio bem”, completa Antônio Nobre.