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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Último grupo indígena isolado fora da Amazônia pode sumir.


Índio terena em Olinda (PE)

Chaidi - O último grupo indígena em isolamento voluntário que vive na América fora da Amazônia corre o risco de desaparecer se o governo do Paraguai não contiver o desmatamento e a invasão de suas terras dos criadores de gado, denunciaram as Nações Unidas. A tribo de ayoreo totobiegosode, que vive isolada no Paraguai, é como a última aldeia gaulesa resistindo ao avanço do Império Romano. Uma cultura a ponto de fazer outra desaparecer. Mas em vez de muralhas, os nativos estão rodeados de uma imensa floresta que os dá proteção e sustento há milhares de anos. E não tem que resistir às tropas militares, mas ao avanço das máquinas que destroem as árvores do território em que vivem antes da colonização espanhola. Em Chaidí, principal assentamento dos totobiegosode, eles já saíram de seu habitat natural: o interior das florestas virgens do Chaco paraguaio. Nesse monte de vegetação baixa, de cacto e jaguares, de pronunciadas secas e inundações, no departamento de Alto Paraguai, mais perto da Bolívia do que de Assunção, ainda se escondem pelo menos uma centena de nativos totobiegosode que nunca tiveram contato com a sociedade. Eles voluntariamente se recusam a viver com os "coñone", que significa "os que não entendem o mundo" em idioma ayoreo, termo dedicado aos estranhos que não vivem para cuidar da floresta. Seus irmãos denunciaram o que eles não estão em condições de fazer: o desaparecimento de todo um ecossistema sob as máquinas das empresas criadoras de gado. Pelo menos três fazendas, Yaguareté Porá, brasileira, Carlos Casado S.A., de capital espanhol, e a paraguaia Itapotí possuem os títulos de propriedade de boa parte das quase 2,8 milhões de hectares que, segundo os antropólogos, alguma vez integraram o território dos diferentes grupos ayoreo, que viviam entre o sul da Bolívia e a região chaquenha do Paraguai. "Só queremos proteger nossos irmãos, e, para isso, precisamos que o Estado compra e proteja nosso território ancestral", disse à Agência Efe Porai Picanerai, cacique dos totobiegosode de Chaidí. Picanerai vivia na floresta até que, em 1986, outros ayoreo armados enviados pela Missão Novas Tribos, um grupo evangélico americano com longa trajetória no Paraguai, chegou a sua aldeia, lembrou. "Matei duas pessoas para defender minha família", confessou.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Desmatamento tem alta na Amazônia em agosto e setembro, diz Imazon.

Segundo ONG, aumento foi de 191% no último bimestre em relação a 2013.
Governo não divulgou dados do Deter referentes aos dois últimos meses.

Do G1, em São Paulo
Operação Pequiá percorreu mais de 4 mil km na região do vale do Araguaia, verificando indicativos de desmatamento  (Foto: Hebert Rondon/Ibama)Área desmatada na região de Mato Grosso, localizada por agentes do Ibama em agosto deste ano (Foto: Hebert Rondon/Ibama)
Dados do desmatamento na Amazônia (Foto: G1)
O desmatamento da Amazônia aumentou 191% em agosto e setembro de 2014, em relação ao mesmo bimestre de 2013, segundo levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), de Belém. Em termos absolutos, a alta foi de 288 km² para 838 km².
O levantamento é paralelo ao realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que utiliza o sistema Deter. O mecanismo do Inpe analisa a degradação (desmatamento parcial) e o corte raso (desmatamento total) da floresta nos estados que possuem vegetação amazônica (todos os da Região Norte, além de Mato Grosso e parte do Maranhão).
O dado mais recente do Deter foi divulgado em setembro, com números referentes aos meses de junho e julho, e já indicava aumento de 195% no desmate na comparação entre os dois meses de 2013 e 2014. As informações são utilizadas pelo Ministério do Meio Ambiente para controlar a devastação do bioma.
Calendário do desmatamento
Agosto e setembro são os dois primeiros meses do calendário oficial de medição do desmatamento, período que compreende de agosto a julho e está relacionado com as chuvas e atividades agrícolas.
De acordo com reportagem publicada neste domingo (19) no jornal "Folha de S.Paulo", foram monitorados 93% da área florestal na Amazônia Legal. Em 2013, o monitoramento cobriu uma área de 79%. Para fazer as análises, o instituto utiliza o SAD, sistema de alerta de desmatamento e degradação (veja a tabela no site do Imazon).
Procurado, o Ministério do Meio Ambiente informou que não comentaria os números do Imazon, mas enviou um quadro com dados anteriores do Deter e do Imazon, mostrando que os dois levantamentos já tiveram resultados discrepantes. O MMA afirmou que os dados oficiais do desmatamento na Amazônia são do Prodes (Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica por Satélites), sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgado uma vez por ano, em novembro. À "Folha", o MMA informou que decidiu publicar os novos números do Deter em novembro porque a leitura de dados contaria com imagens de satélite quatro vezes mais precisas, com o programa chamado Novo Deter.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Fascínio e destruição

Em 1999 chegamos à Amazônia para investigar a exploração ilegal de madeira. Não saímos mais. Muitas pesquisas e ameaças de morte depois, continuamos em campo. Aliados às comunidades locais, identificamos áreas sob pressão de desmatamento e denunciamos os responsáveis. Lutamos para que a produção de gado e soja, maiores vetores de devastação, parem de avançar sobre a floresta. Em 2014, voltamos a tratar do tema da exploração ilegal de madeira denunciando as fraudes no sistema que controla o setor.
A Amazônia é a maior floresta tropical do planeta. © Greenpeace / Rodrigo Baleia
Do alto, do solo ou da água, a Amazônia é um impacto para os olhos. Por seus 6,9 milhões de quilômetros quadrados em nove países sul-americanos (Brasil, Bolívia, Peru, Colômbia, Equador, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa) espalha-se uma biodiversidade sem paralelos. É ali que mora metade das espécies terrestres do planeta. São aproximadamente 40 mil espécies de plantas e mais de 400 de mamíferos. Os pássaros somam quase 1.300, e os insetos chegam a milhões. 
No Brasil, que engloba cerca de 60% da bacia amazônica, o bioma cobre 4,2 milhões de quilômetros quadrados (49% do território nacional) e se distribui por nove estados (Amazonas, Pará, Mato Grosso, Acre, Rondônia, Roraima, Amapá, parte do Tocantins e parte do Maranhão). Ele é muitas vezes confundido com a chamada Amazônia Legal - uma região administrativa de 5,2 milhões de quilômetros quadrados definida em leis de 1953 e 1966 e que, além do bioma amazônico, inclui cerrados e o Pantanal. (Mapa: bioma, Amazônia Legal e Limite Panamazônia)
Sob as superfícies negras ou barrentas dos rios amazônicos, 3 mil espécies de peixes deslizam por 25 mil quilômetros de águas navegáveis: é a maior bacia hidrográfica do mundo, com cerca de um quinto do volume total de água doce do planeta. Às suas margens, vivem mais de 24 milhões de pessoas, incluindo mais de 342 mil indígenas de 180 etnias distintas, além de ribeirinhos, extrativistas e quilombolas.
Além de garantir a sobrevivência desses povos, fornecendo alimentação, moradia e medicamentos, a Amazônia tem uma relevância que vai além de suas fronteiras. Ela é fundamental no equilíbrio climático global e influencia diretamente o regime de chuvas do Brasil e da América Latina. Sua imensa cobertura vegetal estoca entre 80 e 120 bilhões de toneladas de carbono. A cada árvore que cai, uma parcela dessa conta vai para os céus.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014


16/12/2014 13:31

Ibama executa na Amazônia maior programa de soltura de quelônios

Ibama
Ação de soltura de 100 mil tartarugas
O Ibama devolveu à natureza mais uma leva de quelônios da Amazônia (tartaruga-da-amazônia, tracajá, pitiú etc.) numa ação de soltura de 100 mil tartarugas realizada em novembro nos tabuleiros de Walterbury, Nova Olinda e Vista Alegre , administrados pela prefeitura de Itamarati, município amazonense localizado a cerca de 983 km de Manaus. Dessa forma, o instituto já atingiu a marca de 70 milhões de filhotes restituídos a seu habitat pelo Programa Quelônios da Amazônia (PQA), mundialmente, o que mais reinseriu animais em seu ambiente natural.
O PQA, coordenado pela Diretoria de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas (DBFlo/Ibama), é um instrumento de política de conservação da biodiversidade que tem como premissa básica a conservação das espécies de quelônios da Amazônia no local de origem por meio da pesquisa e do manejo. O governo federal criou o programa e coube ao Ibama gerenciá-lo por meio de parcerias com prefeituras, ONGs e comunidades locais.
O objetivo do PQA, além de promover a reintegração das espécies a seu ambiente, é fixar o homem no campo, com a geração de emprego e renda, proporcionando, assim, o bem-estar socioeconômico e ambiental das comunidades que povoam as bacias dos rios Amazonas e Araguaia-Tocantins. Os resultados até agora atingidos permitem que o Brasil seja reconhecido como o único país da América do Sul que ainda possui estoques significativos de quelônios passíveis de recuperação e viáveis a projetos de uso sustentável.
Para se ter uma ideia da evolução do programa, que já conta 35 anos de existência, em sua primeira atuação nos tabuleiros da região de Itamarati, havia apenas 54 tartarugas. Nesta, foram mais de 4.300 matrizes. Somente no estado do Amazonas, foram soltos, no total, cerca de 2,1 milhões de quelônios neste ano contra 1,2 milhão em 2013.
Muito utilizados na culinária, do indígena e do amazonense em geral, os quelônios vinham diminuindo ano após ano, principalmente, a tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa). Na época da desova, que ocorre entre agosto e setembro, os guarda-praias passam a madrugada de tocaia para saber onde as matrizes colocarão seus ovos. Eles também cuidam dos ninhos durante a incubação, contra invasores e predadores. Cada postura pode chegar a ter mais de 180 ovos, mas a média computada é de cem por ninhada. No local da desova, são fincados paus contendo informações de data. Após 60 dias, a areia é escavada e os filhotes já nascidos são colocados em piscinas, onde passam mais 20 dias à espera da soltura. Nessas piscinas, eles perdem o cheiro característico, que atrai predadores, e ganham mais força e agilidade, o que lhes confere maior potencial de sobrevivência.
A ação de soltura foi acompanhada de perto pela coordenadora de Geração de Conhecimento dos Recursos Faunísticos e Pesqueiros, da DBFlo/Ibama, Maria Izabel Soares Gomes da Silva, pelo superintendente do instituto no Amazonas, Mário Lúcio Reis, assessorado por Fábio Cardoso, e pelo prefeito de Itamarati, João Medeiros Campelo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Meio ambiente

Torre de 325 metros vai sentir o clima da Amazônia.

Redação do Site Inovação Tecnológica - 15/12/2014
Torre de 325 metros vai sentir o clima da Amazônia
Com a inauguração prevista para junho de 2015, nesta etapa da construção a torre Atto já se aproxima dos 300 metros de altura.[Imagem: MPI for Chemistry]
Torre Atto
Depois de anos de planejamento e acertos com parceiros internacionais, começou a ser construída uma torre de 325 metros de altura que será usada para estudar a Floresta Amazônica.
torre Atto (sigla em inglês paraTorre Alta de Observação da Amazônia), que será mais alta do que a Torre Eiffel, está sendo erguida ao norte de Manaus, na Reserva Biológica do Uatumã, a leste da represa de Balbina.
O projeto está sendo realizado por pesquisadores do INPA (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), da Universidade do Estado do Amazonas e do Instituto Max Planck de Química, da Alemanha.
Ao longo de toda a sua altura, a torre terá uma série de sensores, sondas e bombas, que sugarão o ar em diferentes altitudes para analisá-lo e detectar sobretudo a quantidade de aerossóis presentes. Os cientistas planejam também estudar o transporte de massas de ar pela floresta.
"Nós queremos entender onde e por que os gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e outros gases-traço reativos se formam e acumulam," explicou o professor Jurgen Kesselmeier, acrescentando que tem medo de altura e que não sabe se conseguirá subir até o alto da torre.
Mas o grande destaque da Atto não será a altura, já que existem sensores dedicados à coleta de dados climáticos no alto de edifícios com mais de 800 metros em Dubai.
O que tornará a Atto única no mundo é o ecossistema onde ela está sendo instalada: na maior área de floresta contínua da Terra - embora venha diminuindo com o avanço das plantações de soja e da criação extensiva de gado.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Incêndios ocultos na Amazônia desafiam cientistas.

Fenômeno de difícil detecção por satélites destruiu área equivalente a dois Estados do Espírito Santo entre 1999 e 2010, segundo Nasa.

Da BBC
Incêndios rente ao solo são de difícil percepção por satélites (Foto: Doug Morton/BBC)Incêndios rente ao solo são de difícil percepção por satélites (Foto: Doug Morton/BBC)
De seu escritório no Centro Espacial Goddard, da Nasa, Douglas Morton analisa um fenômeno oculto e danoso na Amazônia. São incêndios rente ao solo, de baixa intensidade e expansão lenta - meio metro por minuto - mas capazes de manter suas chamas acesas por semanas e destruir áreas consideráveis de selva.
O fogo de sub-bosque (a área mais próxima ao solo) destruiu mais de 85 mil quilômetros quadrados no sul da Amazônia entre 1999 e 2010, segundo a Nasa, o equivalente a quase duas vezes a área do Espírito Santo.
Estes incêndios são um desafio para Morton e seus colegas da agência espacial dos EUA, porque os satélites, usados para detectar chamas muito maiores e mais destrutivas, não identificam facilmente fogo tão próximo do chão. "A razão por que (os incêndios) são considerados ocultos é que o fogo queima o sub-bosque e a folhagem das árvores bloqueia o sinal do satélite", disse Morton.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Alerta de catástrofe

Depois do relatório da ONU, é imprescindível coordenar um acordo mundial para reduzir as emissões poluentes.

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Depois do relatório da ONU sobre os catastróficos efeitos das emissões de gases poluentes já não restam desculpas nem razões para adiar um acordo coordenado entre os países a fim de reduzir as emissões de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso gerados pelos combustíveis fósseis. O Painel Intergovernamental contra a Mudança Climática (IPCC) acaba de alertar, respaldado por todas as evidências científicas que é possível dizer hoje, que, se se quiser evitar danos catastróficos óbvios no planeta, será preciso reduzir entre 40% e 70% as emissões de gases de efeito estufa até 2050 e eliminá-las por completo até 2100. A ONU não deixa espaço para negar as evidências, nem para postergar indefinidamente.
É possível que, entre os Governos dos países desenvolvidos, esteja crescendo a consciência de que o consumo maciço de combustíveis fósseis para o transporte, a indústria e a climatização está prejudicando as condições de produção de alimentos, de fornecimento de água e até de sobrevivência. A UE, por exemplo, está cumprindo seus compromissos de redução de emissões. Mas não basta. Nessa tarefa devem envolver-se a fundo os Estados Unidos, a China e a Rússia. Todas as zonas econômicas mundiais devem coordenar políticas intensivas de substituição progressiva de energias derivadas do petróleo por energias mais limpas.
Não é um projeto simples; de fato, é bastante complicado mesmo em escala nacional. Exige calcular quanto custa substituir o petróleo e seus derivados por outras energias menos poluentes e mais caras em um prazo aproximado de 80 anos; e definir como essa substituição será financiada. Requer, ainda, dar autoridade às instituições que devem organizar a negociação do consenso para que essa mudança seja possível e estabelecer sistemas para comprovar o cumprimento. A ONU tem razão; a questão é se há instrumentos políticos para corrigir a situação.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A   incrível  proteção  natural  da  Floresta  Amazônica.

- Deveria haver ciclones, como na Índia e no Paquistão. Eles não existem porque o topo da floresta, onde estão as copas das árvores, é áspero e faz com que os ventos sejam obrigados a dissipar sua energia, o que acalma a atmosfera.

- Mas ocorrem tempestades. Claro, mas elas não costumam ser destruidoras. Onde há florestas não há secas, nem excesso de água, nem furacões, nem tornados. É como uma apólice de seguros contra os fenômenos atmosféricos extremos.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Porque    precisamos    cuidar    da    nossa    Floresta?


A floresta amazônica coloca 20.000 milhões de toneladas de água na atmosfera por dia.



Onde há florestas não há seca, nem excesso de água, nem furacões, nem tornados. É     como       uma         apólice     de      seguros     contra    os     fenômenos  atmosféricos     extremos.



O sistema terrestre é um organismo e está muito doente"

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

O pó de fadas da Amazônia

O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Antonio Nobre, revela os cinco segredos da floresta amazônica e alerta sobre o perigo de seu desmatamento

Ele foi o primeiro a falar no III Encontro Panamazônico realizado em Lima, nos dias 6 e 7 de agosto. Tem um discurso apaixonado e uma qualidade um tanto rara para um cientista: sabe combinar dados com histórias, explicação com emoção. Antonio Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), conta nesta conversa qual é a mágica da Amazônia, em que consistem seus segredos e por que as mudanças climáticas e o desmatamento a ameaçam seriamente...
- Já estamos no ‘Dia depois de amanhã’ das mudanças climáticas?Estamos em uma situação bastante grave. A ponto de a comunidade científica, que não costuma concordar entre si, ter formado um bloco com uma convicção homogênea sobre o assunto. As mudanças climáticas não são mais só uma projeção.
- E como essa situação de gravidade se manifesta na Amazônia?No desmatamento, que remove a capacidade de a floresta se manter. Ela conseguiu se manter por milhões de anos, em condições adversas. Mas hoje sua capacidade está reduzida. Antes havia duas estações na Amazônia, a úmida e a mais úmida.
- Que eram facilmente reconhecíveis. Agora temos uma estação úmida moderada e uma estação seca. E a seca tem um efeito muito perverso. Porque quando não chove as árvores se tornam inflamáveis. O fogo entra e já não existe mais uma floresta tropical.

Os jatos verticais e o pó de fadas

- Apesar de tudo, a Amazônia ainda guarda cinco segredos. É algo que os povos indígenas sempre souberam e que a nossa civilização não percebeu. Mas, nos últimos 30 anos, a Ciência revelou esses cinco segredos. O primeiro é como a floresta Amazônia mantém a atmosfera úmida mesmo estando a 3.000 quilômetros do oceano...
 ...E fazer com a que a chuva chegue até a Patagônia. E aos Andes, por 3.000 ou quase 4.000 quilômetros. Outras partes do mundo que estão longe do oceano, como o deserto do Saara, não recebem água. Mas na América do Sul não há esse problema, e isso se deve ao primeiro segredo: os jatos de água verticais.
- E qual é o segredo desse segredo? É que as árvores da Amazônia são bombas que lançam no ar 1.000 litros de água por dia. Elas a retiram do solo, a evaporam e a transferem para a atmosfera. A floresta amazônica inteira coloca 20 bilhões de toneladas de água na atmosfera a cada dia. O rio Amazonas, o mais volumoso do mundo, joga no Atlântico 17 bilhões de toneladas de água doce no mesmo intervalo de tempo.
- É incrível. Como isso foi descoberto? Fazendo medições. Com torres de estudo, com satélites que detectavam esse transporte de vapor d’água, que é um vapor invisível.
- Produzido pelas árvores quase que por magia. A magia vem no segundo segredo. Como é possível que caia tanta chuva, se o ar da Amazônia é tão limpo, já que o tapete verde cobre o solo? O oceano também ter um ar limpo, mas não chove muito sobre ele. Nós, cientistas, desvendamos um mistério.
- Qual? Para formar uma nuvem de chuva, que são gotas de água em suspensão, é preciso transformar o vapor baixando a temperatura. Mas se você não tem uma superfície de partículas, sólida ou líquida, para gerar essas nuvens, o processo não começa.
“A floresta amazônica coloca 20.000 milhões de toneladas de água na atmosfera por dia”
- Então o que é que a floresta faz?Produz o que chamamos de pó de fadas. São gases que saem das árvores e que se oxidam na atmosfera úmida para precipitar um pó finíssimo que é muito eficiente para formar chuva.
- Parece uma fábula. É que a floresta manipula a atmosfera constantemente e produz chuvas para si própria, uma coisa quase mágica. Os gases saem das árvores. São como perfumes e se volatilizam.
- Uma espécie de grande fragrância sustentável. É um oceano verde, diferente do azul. O azul não tem esse mecanismo porque carece de árvores. Tem as algas, que produzem um pouco, mas não como o verde.

A bomba natural e os rios voadores

- Vamos ao terceiro segredo. Vamos. Na Amazônia, o ar que vem do hemisfério norte cruza do Equador, entra e vai até a Patagônia. Até lá chega esse ar úmido, que vem do Atlântico equatorial.
- Com os ventos alísios. Sim, com os ventos alísios que trouxeram as caravelas dos europeus, há 500 anos. Mas os alísios do oceano sul sopram para o norte. O que faz esses ventos irem contra a tendência de circulação global? Dois físicos russos com quem eu colaboro responderam a essa pergunta ao estudar o efeito do vapor dos jorros verticais amazônicos.
- Mais uma vez os jatos verticais. Eles descobriram que, pela física fundamental dos gases, essas condensações de vapor puxam o ar dos oceanos para dentro do continente e criam uma espécie de buraco de água. É como uma bomba natural. A floresta traz sua própria umidade do oceano.
“Onde há florestas não há seca, nem excesso de água, nem furacões, nem tornados. É como uma apólice de seguros”
- E ainda tem mais... O quarto segredo é a transferência dessa umidade amazônica para outras regiões: os Andes no Peru, os páramos da Colômbia... Se você olhar o mapa do mundo, vai descobrir que existe um cinturão úmido que passa pelo Equador, pela África e pelo sudeste asiático.
- É a linha do Equador. Sim, mas é na linha dos trópicos, o de Câncer ao norte e o de Capricórnio, ao sul, que estão todos os desertos. O do Atacama, no Chile, o da Namíbia, na África. Mas essa área que concentra 70% do PIB da América do Sul - que vai de Cuiabá a Buenos Aires, de São Paulo aos Andes – é úmida! Apesar de estar na linha dos desertos.
- E qual o mistério dessa área? Chama-se rios voadores. É uma grande massa de ar úmido bombeada pela Amazônia contra os Andes, que são uma parede de mais de 6.000 metros de altura. É assim que essa massa chega a áreas onde deveria haver deserto. Por isso chove na Bolívia e no Paraguai.
- Falta, finalmente, o quinto segredo. O quinto segredo é que, se você colocar em um gráfico todos os furacões que já aconteceram na história – e a NASA já fez isso – na região das florestas equatoriais não há nenhum deles. E essa região é a que tem mais energia porque a radiação solar é muito intensa.
O sistema terrestre é um organismo e está muito doente"
- Deveria haver ciclones, como na Índia e no Paquistão. Eles não existem porque o topo da floresta, onde estão as copas das árvores, é áspero e faz com que os ventos sejam obrigados a dissipar sua energia, o que acalma a atmosfera.
- Mas ocorrem tempestades. Claro, mas elas não costumam ser destruidoras. Onde há florestas não há secas, nem excesso de água, nem furacões, nem tornados. É como uma apólice de seguros contra os fenômenos atmosféricos extremos.

A guerra contra a ignorância

- Agora esses cinco segredos estão em risco... O problema se chama desmatamento. Se tirarem a metade do fígado de um bêbado, vai ser difícil para ele lidar com o álcool. É isso o que está acontecendo com a Amazônia. Estamos retirando um órgão do sistema terrestre.
- Então a Amazônia não é o pulmão, mas sim o fígado do planeta?É o pulmão, o fígado, o coração... É tudo! Essa bomba natural da qual falei é um coração que pulsa constantemente. O pó de fadas também funciona como uma vassoura química contra substâncias poluentes, como o óxido de enxofre. O melhor ar é o da Amazônia.
- E, apesar disso, continuamos destruindo a floresta. Se você chega com uma motosserra, com um trator ou com fogo, a Amazônia não pode se defender. As intervenções do homem podem ser benéficas, como na medicina, mas também terríveis, como a motosserra. Por isso eu proponho um esforço de guerra.
- No que consistiria esse esforço? Seria uma concentração de forças para resolver um problema que ameaça tudo. Hoje a ciência nos permite saber que a situação é gravíssima. E o que eu proponho é lutar contra a ignorância, o principal motivo da destruição da floresta amazônica.
- Parece que as prioridades mundiais são outras. Em 2008, os bancos foram salvos em 15 dias. Foram gastos trilhões de dólares nisso. A crise financeira não é nada comparada à crise ambiental.
A ciência hoje nos permite saber que a situação é gravíssima. Temos que lutar contra a ignorância”
- O que está acontecendo? Estamos embriagados com a civilização? É uma embriaguez primitiva. Quando você vai ao médico e ele diz que você tem uma doença em estágio avançado, o que você faz? Continua fumando? O sistema terrestre é um organismo e está muito doente. A parte contaminante é a parte mais degenerada do ser humano.
- Podemos curar a Amazônia dessa doença? Eu acredito que se tivermos uma capacidade semelhante à que tivemos para salvar os bancos, sim. Porque a floresta tem um poder de regeneração impressionante.
- E, além disso, ela deveria ser importante para todo o mundo. A atmosfera tem uma coisa chamada teleconexões. Um modelo climático pode demonstrar que as mudanças na Amazônia vão afetar os ciclones na Indonésia.
- Então, o maior segredo é acordar... E saber que o que fazemos agora é determinante. As gerações posteriores vão sofrer com as más escolhas de hoje. A geração que está na Terra hoje tem nas mãos os comandos de um trem que pode ir para o abismo ou uma oportunidade para se viver muito mais.